O Agente Secreto

Filme se credenciou ao Oscar propondo reconstrução da memória e da ciência no Brasil

Março/2026

Matias López, Diego Portales University

Documento de identificação civil com foto do personagem de Wagner Moura em "O agente secreto". Foto de divulgação.

Documento com foto do personagem de Wagner Moura no filme “O agente secreto”, concorrente ao Oscar em quatro categorias. Foto de divulgação.

Cercado de muita expectativa, o filme brasileiro O Agente Secreto concorre neste domingo (15/3) ao Oscar 2026, nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator (Wagner Moura) e melhor seleção de elenco. Para quem ainda não viu, além das salas de cinema o filme está disponível também no Netflix desde o dia 7 de março.

Esse é o sexto longa do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que se soma às obras Retratos fantasmas (2023), Bacurau (2019), Aquarius (2016) e O som ao redor (2012) e Crítico (2008).

Como cientista social e cinéfilo, me entretenho duplamente com os filmes do Kleber, que fazem sempre muitas referências a clássicos do cinema e também a temas clássicos das ciências sociais, em particular da ciência social sobre o Brasil: modernização autoritária, familismo, relações sociais, “jeitinho” e carnaval, entre tantos outros temas.

E, assim como em seus trabalhos anteriores, é difícil reduzir o filme a um único tema. Mas é possível dizer que um de seus eixos centrais é a representação da complexa realidade brasileira de 1977, e também como esse período funciona como espelho para o Brasil de hoje. Trata-se de uma ficção histórica que, de certo modo, contrasta e ao mesmo tempo se complementa com a produção que a precede, o documentário Retratos Fantasmas. Ali Kleber reafirma uma máxima do diretor francês Jean-Luc Godard segundo a qual uma boa ficção tende a ser um documentário e vice-versa.

No lado documentário de O Agente Secreto, o filme reconstrói de modo obsessivo o ano de 1977 e alcança um realismo impressionante. Para citar um detalhe, há muitas referências às décadas de 1940 e 50 em móveis, músicas e histórias. Afinal, assim como hoje falamos dos anos 1970, naquela década certamente se remetia muito a eventos de períodos anteriores, como a Segunda Guerra Mundial.

Mas eu gostaria de salientar um aspecto menos comentado sobre o filme: sua relação com a ciência, especificamente sobre fazer ciência no Brasil.

Retratos fantasmas da ciência

A trama começa no departamento de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde uma cientista descobre uma perna humana (e cabeluda) no estômago de um tubarão que estava sendo dissecado. O tubarão não pôde ser guardado, pois o departamento tem uma geladeira que não funciona.

Em seguida, a trama acompanha Armando (interpretado por Wagner Moura), um jovem professor universitário. Ele dirige um departamento da UFPE (aparentemente de engenharia) onde se desenvolve uma série de inovações tecnológicas.

E, mais adiante, o filme mostra, no tempo presente, duas jovens assistentes de pesquisa trabalhando em um projeto de história ou ciências sociais e catalogando ou codificando um vasto material de arquivo que remonta a história desses personagens dos anos 1970.

Em alguns desses retratos, vemos como cientistas, estudantes universitários e acadêmicos em geral foram reprimidos pela ditadura militar brasileira (1964-1985). Essa perseguição ocorreu de modo desproporcional à ameaça que poderiam representar ao regime. E, segundo alguns estudiosos do tema, isso pode ter contribuído para o fim da ditadura.

O cientista político Vitor Weffort explica como a perseguição à profissionais de classe média e alta fez com que a elite re-calculasse seu apoio à ditadura. Isso se aplica à comunidade acadêmica, pois nas universidades estava a elite que o regime originalmente dizia proteger. Essa elite experimentou, portanto, um processo de conversão de interesse em direção à democracia.

A ditadura como contexto

Outro aspecto incomum que o filme resgata é o retrato do empresariado como base social da ditadura militar. Na ciência política, entende-se que a coalizão entre empresários, tecnocratas e militares esteve ligada ao surgimento de várias ditaduras na América do Sul. Estes regimes foram caracterizados pelo acadêmico argentino Guillermo O’Donnell com o conceito “autoritarismo burocrático”, muito difundido nas ciências sociais e usado para explicar regimes autoritários em diferentes partes do mundo.

Nesse contexto, é marcante que a perseguição ao personagem principal se dê não por ele ser uma figura politicamente exposta, mas pela ganância de um empresário corrupto, interessado em se apropriar das invenções produzidas na universidade. A acusação de que o financiamento para a ciência seria “dinheiro fácil” aparece associada a uma parte do empresariado que é, esta sim, beneficiária de inúmeras vantagens concedidas pelo governo.

Algumas publicações apontam, portanto, que o filme trata da corrupção associada ao autoritarismo. Porém, acredito que ele vai além. A corrupção mostrada no filme não é tão distante da que observamos no Brasil hoje. Uma das pesquisas mais importantes sobre esse tema vem da própria UFPE (a UFPE real), onde a cientista política Nara Pavão mostra como a democracia, por si só, nem sempre é capaz de solucionar práticas de corrupção.

Além disso, a ditadura não é retratada em seu período mais repressivo, mas sim em um momento muito próximo ao início do processo de abertura “lenta, gradual e segura”. Esse período construiu instituições que, por um lado, possibilitaram a redemocratização e, por outro, mantiveram práticas repressivas herdadas do regime – um fenômeno comum nas democracias da América Latina. Kleber nos mostra essa conexão ao representar escândalos reais do presente transplantados ao ano de 1977.

O paralelismo com os dias de hoje é tão forte que torna difícil interpretar o filme apenas como uma crítica ao passado. Ele sugere que aquele Brasil de 1977 continua, de várias formas, a se reproduzir nos anos 2020.

No autoritarismo burocrático predomina uma visão tecnocrática da política e a tentativa de desmobilização da sociedade. Ela é baseada na ideia de que o Estado poderia impor uma racionalidade superior às massas. Sua base social está justamente na coalizão entre empresários, tecnocratas e militares, não muito diferente das alianças políticas que apareceram em episódios recentes da política brasileira, como a tentativa de golpe de 2022 e, antes disso, as mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Nos últimos anos, com a radicalização de setores da direita e a revalorização pública da ditadura, voltaram também as acusações contra acadêmicos e cientistas. Vimos novamente situações de intervenção política em instituições de fomento à pesquisa e discursos abertamente autoritários e anti-ciência.

Permeados pela desigualdade

Em outro ponto importante do filme, que acompanha produções anteriores do diretor, O Agente Secreto também representa a complexidade da estrutura social e da cultura brasileiras. Por meio do vilão principal, o Dr. Ghirotti (interpretado por Luciano Chirolli), orgulhoso de seu “sangue italiano”, o filme expõe elementos importantes da ideologia da supremacia branca no Brasil.

Inclusive, as dinâmicas inter-raciais dentro das famílias brasileiras aparecem de forma muito realista. O tema permeia desde o delegado Euclides (interpretado por Robério Diógenes), que lida com dois filhos, um racializado e outro branco, até o protagonista, que procura documentos sobre sua mãe, conhecida como “índia” e apagada da história familiar. Esses momentos mostram como a raça e a hierarquia social atravessam a vida cotidiana.

Porém, assim como na vida real, os mocinhos não são apenas testemunhas da desigualdade, eles também fazem parte dos mecanismos que a reproduzem. Um exemplo é a carismática Dona Sebastiana (interpretada por Tânia Maria), que hospeda perseguidos de todo tipo em seu pequeno prédio. Entre os moradores de seu abrigo estão empregadas domésticas e um adolescente, negro e homossexual, o Clóvis (interpretado por Robson Andrade). Rejeitado pela própria família, o rapaz encontra ali refúgio e afeto, mas também uma relação marcada pela servidão. Os demais personagens encomendam a ele pequenas tarefas, como sair para comprar cigarros, sem remuneração ou relação formal de trabalho.

Uma ficção realista

Quando uma colega alemã me perguntou se a história do filme era real, respondi que provavelmente um dos únicos personagens históricos é a perna cabeluda. De fato, a imprensa de Pernambuco noticiou essa lenda urbana para preencher o vazio deixado por outras notícias que haviam sido censuradas pelo regime.

No entanto, todos esses elementos contribuem para que o filme funcione tão bem como ficção histórica. Não por reproduzir fatos específicos, mas por captar aspectos fundamentais das várias dimensões do Brasil de 1977 e de hoje.

Não abordei aqui outros temas essenciais do filme, como a cidade de Recife, o cinema como metalinguagem, ou demais traços interessantes da cultura brasileira (como o carnaval). Sob o ponto de vista de um acadêmico de ciência política, no entanto, destaco que O Agente Secreto é uma excelente ferramenta para discutir sobre autoritarismo burocrático, desigualdade, memória política e o lugar da ciência na sociedade brasileira. Mas é muito mais do que isso. Kleber Mendonça Filho faz filmes complexos e multifacetados, como é a realidade, e talvez por isso ele consiga este tom documental e talvez até… científico?The Conversation

Matias López, professor assistente da Escola de Ciência Política, Diego Portales University

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Fonte: The Conversation (CC)

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