
Enquanto a medicina chinesa e a ayurveda registraram seus próprios saberes em compêndios milenares, o conhecimento sobre as plantas brasileiras, construído sobretudo por povos indígenas e transmitido oralmente, foi documentado, em grande parte, por europeus desde a colonização. Esses registros ficaram espalhados em livros, relatos de viagem e guias médicos. A base de dados Dataplamt reúne esse material disperso. A plataforma é apresentada no artigo Dataplamt: base de dados bibliográfica sobre o uso tradicional das plantas brasileiras, de Maria das Graças Lins Brandão, presidente do Instituto Cayapiá, dedicado à defesa da cultura e à conservação das plantas nativas usadas pelo povo brasileiro, publicado no volume de 2026 de HCS-Manguinhos.
Até o momento, a Dataplamt reúne informações sobre 3.464 espécies, extraídas de 114 livros produzidos até 1950. As plantas são catalogadas, entre outros critérios, em 170 categorias de uso medicinal, muitas delas relacionadas a doenças infecciosas e parasitárias, e têm seus nomes originais registrados. De acordo com a autora, nas Américas as plantas são manejadas há milênios, e pesquisas recentes sugerem que a própria floresta amazônica foi moldada por populações indígenas, que cultivavam centenas de espécies, entre elas palmeiras, árvores frutíferas e plantas medicinais. O fato de muitas dessas espécies seguirem em uso hoje indica que atravessaram séculos. É o que o artigo chama de usos “resilientes”.
Ainda de acordo com o artigo, os jesuítas foram os primeiros a registrar o uso de plantas pelos povos indígenas e chegaram a incorporá-las a remédios europeus. A chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, abriu o país a expedições científicas estrangeiras. Os naturalistas Auguste de Saint-Hilaire e Karl von Martius documentaram, respectivamente, cerca de setenta e mais de seiscentas espécies. Esse conhecimento chegou rapidamente à prática médica. Algumas plantas descritas por Martius, como o mulungu, a espinheira-santa e o barbatimão, são hoje matéria-prima de fitoterápicos registrados pela Anvisa.
Desde 2014, a Organização Mundial da Saúde admite que a eficácia de uma planta medicinal seja reconhecida também pela tradição de uso, desde que esse uso esteja documentado de forma consistente e por um longo período. A Anvisa segue o mesmo caminho com a categoria de produtos tradicionais fitoterápicos. Segundo a autora, uma base histórica como a Dataplamt ajuda a identificar usos que se mantiveram ao longo do tempo e pode contribuir para o desenvolvimento de novos produtos, para a bioeconomia e para a divulgação da biodiversidade brasileira entre a população.
Leia o artigo:
BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Dataplamt: base de dados bibliográfica sobre o uso tradicional das plantas brasileiras. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-59702026000100024




