5 de junho de 2026
Marina Lemle / Blog de HCS-Manguinhos
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, resgatamos trechos de uma entrevista concedida ao Blog de HCS-Manguinhos em 2014 pelo físico Henrique Lins de Barros, falecido em 2025. Ele havia assumido a chefia do Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Fica aqui nossa homenagem póstuma a este importante e querido cientista brasileiro neste dia tão relevante para o planeta.
Henrique Lins de Barros
Bactérias magnéticas formaram o primeiro elo entre a física e a biologia na carreira de Henrique Lins de Barros. Físico por formação, intriga-lhe a vida – tão diversa e ao mesmo tempo frágil e insistente – a desafiar cientistas em busca do seu significado.
Questões como perda de biodiversidade e desenvolvimento sustentável no modelo econômico vigente, às quais a ciência ainda tem poucas respostas, estão na pauta de Lins de Barros, assim como Santos Dumont, que tanto o inspirou.
Sua trajetória vai da física à história e ao meio ambiente. O que aprendeu nesse caminho?
A física me mostrou a necessidade de ter uma disciplina no trabalho e certa dose de inventividade, dois aspectos que podem parecer contraditórios, mas que são, de fato, complementares. Por um lado temos que ter um método, conhecer e respeitar as técnicas e as ferramentas que estamos trabalhando, por outro temos que pensar em aspectos que não estão prontos, e aí podemos propor uma solução diferente. Eu acredito que qualquer pessoa que se dedique ao estudo da ciência inevitavelmente se debruça sobre a história do pensamento, de como as ideias evoluíram abrindo novos campos. A história da ciência é abrangente e sedutora. E, ao olharmos para o passado, vemos que a divisão estreita em disciplinas não é satisfatória.
Quando terminei meu doutorado com o prof. Humberto Brandi, na época na PUC/RJ, tomei conhecimento das bactérias magnéticas, um assunto que na época era uma novidade e parecia ser uma singularidade de rara ocorrência. No CBPF, Darci Motta junto com o prof Richard Frankel do MIT, que estava no Brasil na época e introduziu o assunto a convite do prof. Jacques Danon, fez os primeiros trabalhos. A primeira coleta com bactérias foi realizada no Jardim Botânico. Logo me aderi ao grupo e comecei a fazer observações e coletas.
A física – o magnetismo, o estudo do movimento em fluidos viscosos etc – e a biologia – o estudo dos seres vivos, as ideias de evolução por seleção natural – despertavam, na época, meu interesse. Juntei o meu lado de físico com o meu interesse sobre o estudo da vida. Eu ia fazer o meu doutorado com o prof. George Bemski, em biofísica, mas, por razões pessoais, não foi possível, e desenvolvi trabalhos em física atômica. Ao começar a trabalhar com bactérias capazes de produzir cristais magnéticos e utilizar o campo magnético terrestre como elemento essencial para sua sobrevivência, juntaram-se física e biologia.
A enorme diversidade da vida, a espantosa fragilidade de um ser vivo, a impressionante insistência da vida que ocorre nos mais diversos ambientes, passaram a ser parte do meu interesse.
O que aprendi? A minha dificuldade e ignorância para entender o significado da vida. A ciência não sabe responder a pergunta: O que é vida? É capaz de descrever ou explicar alguns processos, mas sempre de forma reducionista.
O senhor é a principal referência brasileira no estudo sobre Santos Dumont. Pode explicar este encantamento?
Aviões e aviõezinhos sempre me fascinaram desde a infância. Acho máquinas maravilhosas capazes de realizar proezas impressionantes. Os aviões são exemplos de uma invenção tecnológica de extrema complexidade. Chegaram para mudar a sociedade. O século XVI é conhecido como século das grandes navegações. O século XX passará para a história como século em que o homem aprendeu a voar, a transportar matéria a grande velocidade, a permitir a troca entre povos distantes. O avião modificou a política, contribuiu para a globalização, alterou as guerras. E nada mais natural para uma pessoa formada em física tentar entender o voo e o que foi tão difícil de ser resolvido e que dificultou a construção do primeiro aparelho capaz de realizar um voo controlado. Isso envolve um bom conhecimento da mecânica, da aerodinâmica, da termodinâmica, da utilização de novos materiais, da elaboração de estruturas leves e resistentes,…
Santos Dumont era um cientista, não um aventureiro que se arriscava a experimentar qualquer artefato. Ele tinha um conhecimento elaborado das questões que surgiam ao se tentar construir um aparelho voador. Ele foi capaz de identificar os problemas e propor soluções. Realizou o primeiro voo dirigido de uma aeronave (com o dirigível N-6, em 1901), inventou o primeiro avião capaz de decolar, voar e retornar ao solo sem acidentes (com o 14bis, em 1906) e construiu o primeiro avião individual, o ultraleve (com o Demoiselle de 1908). Em cerca de dez anos idealizou, construiu e testou mais de 25 inventos diferentes.
Leia a entrevista original, completa:
Museu do Meio Ambiente estimulará debates sobre questões ambientais



