Abril/2026
No Brasil, o modelo de medicina experimental foi incorporado nos institutos públicos de pesquisa a partir do final do século XIX. No Instituto Butantan, a perspectiva experimental foi marca da gestão de Afrânio do Amaral entre 1928 e 1938. No artigo O Grupo Escolar Rural e o Instituto Butantan: relações entre a medicina experimental e o ruralismo educacional, publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 32, 2025), os pesquisadores do Instituto Butantan Paulo H. Nico Monteiro e Suzana C. Gouveia Fernandes, diretora do Centro de Memória, discutem a experiência pedagógica do Grupo Escolar Rural, utilizando como fonte primária o acervo histórico institucional.

Fotos do Clube Agrícola do Grupo Escolar Rural de Butantan, 1934. Coleção Grupo Escolar Rural, sob a guarda do Centro de Memória do Instituto Butantan.
Grupo Escolar Rural de Butantan
O artigo apresenta alguns resultados do projeto “O Grupo Escolar Rural de Butantan: história da educação e do ensino no Instituto Butantan”, que analisou as relações existentes entre o Grupo Escolar Rural de Butantan (Gerb) e o Instituto Butantan. A pesquisa se baseou, fundamentalmente, na análise do conjunto documental da Coleção Grupo Escolar Rural, sob a guarda de Centro de Memória do Instituto Butantan, além de documentos institucionais e oriundos do Arquivo Público do Estado de São Paulo e da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Foram analisados 547 documentos textuais, fotográficos e iconográficos.
Entendido como forma de expressão das diretrizes da medicina experimental na instituição, o Grupo Escolar Rural de Butantan foi, segundo os autores, um modelo do movimento pedagógico posto em prática por intelectuais e políticos paulistas como forma de moldar uma identidade nacional baseada no “homem do campo” nas primeiras décadas do século XX.
“O projeto ruralista do início do século XX teve o Grupo Escolar Rural de Butantan como modelo exemplar”, afirmam os autores. Segundo eles, o apoio da diretoria do Instituto Butantan à experiência pedagógica do Grupo se relaciona à implantação de diretrizes da medicina experimental para todo o Instituto.
Para compreender os fatores que influenciaram a criação na década de 1930 e manutenção por duas décadas de uma escola rural dentro de um instituto de pesquisa ligado à saúde pública e em um local de franca urbanização como o bairro do Butantã, São Paulo, os pesquisadores investigaram as relações entre o Grupo Escolar Rural e o Instituto Butantan tanto no seus aspectos político-administrativos quanto pedagógicos, assim como a proposta educacional do Grupo Escolar Rural de Butantan.
Para isso, analisaram a documentação acumulada principalmente pela professora Noêmia Saraiva Matos Cruz, diretora da Escola, que participou ativamente do movimento ruralista na educação durante toda primeira metade do século XX, e tornou-se uma importante liderança desse movimento. Ela atuou, posteriormente, como Diretora do professorado Paulista e Inspetora Federal do Ensino Rural.
Segundo os autores, a relação entre o Grupo Escolar Rural e o Instituto Butantan esteve, durante algum tempo, associada apenas à ideia de que a Escola existia para atender aos filhos de funcionários e moradores do entorno que, isolados dos bairros mais urbanizados, não tinham condição de receber educação formal. A proposta educacional ligada ao movimento ruralista não havia sido explorada ainda, assim como o interesse e apoio ideológico de ambos órgãos, escola e Instituto, em trabalhar com educação rural e saúde pública por meio da implantação de um modelo experimental.
O apoio institucional dado ao Grupo deveu-se basicamente à atuação política de Afrânio do Amaral, então diretor do Instituto, que além de apoiar o ideário do grupo ruralista, sobretudo Sud Mennucci. Voltado à formação do “homem de campo” e profundamente relacionado à ideia do higienismo como fator de progresso nacional, o movimento tinha por objetivo fixar as populações rurais no campo, evitando os “perigos do êxodo rural” (AMARAL, 1933). Além disso, Amaral utilizou o caráter de experiência pedagógica a ser implantada no Grupo como mais um aspecto do estabelecimento do experimentalismo e da medicina experimental em toda a instituição, que seria a marca de sua gestão à frente do Instituto durante a década de 1930.
O Grupo Escolar Rural permaneceu no Instituto até 1952, inaugurando estratégias de ensino-aprendizagem focadas na experimentação científica, que são, de certa forma, perpetuadas até hoje. Segundo os pesquisadores, para além da relação com o Instituto Butantan, o estudo trouxe elementos novos para a análise da educação rural em São Paulo.
O projeto de pesquisa também permitiu a democratização do acesso aos documentos que fazem parte da Coleção Grupo Escolar Rural de Butantan, após ações de conservação preventiva, descrição documental e digitalização do arquivo para disponibilização no Repositório Digital do Centro de Memória do Instituto Butantan.
Leia na revista HCS-Manguinhos:
O Grupo Escolar Rural e o Instituto Butantan: relações entre a medicina experimental e o ruralismo educacional, artigo de Paulo H. Nico Monteiro e Suzana C Gouveia Fernandes (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)



