Cartas por um “pacote de amor”

Agosto/2025

Uma das cartas-pedido recebidas pela Cruz Vermelha Brasileira, filial RS, no pós-segunda-guerra

Uma das cartas-pedido recebidas pela Cruz Vermelha Brasileira, filial RS, no pós-segunda-guerra

Um saco com cinco quilos de mantimentos como café, banha, açúcar, arroz, sabão, chá, chocolate, cereais, conservas enlatadas e outros alimentos era um “pacote de amor” para famílias deslocadas do Leste Europeu para a Alemanha no pós Segunda Guerra Mundial.

O envio de mantimentos foi, durante o período de 1945 a 1949, a maior frente de atuação da filial da Cruz Vermelha brasileira no Rio Grande do Sul, com sede em Porto Alegre. Tais “pacotes de amor” (Liebesgabenpakete) eram solicitados em cartas-pedido (Bittbriefe).

No artigo A uma família desconhecida”: cartas de deslocados europeus à Cruz Vermelha Brasileira, filial Rio Grande do Sul, no pós-Segunda Guerra Mundial, publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 32, 2025), Rosane Marcia Neumann, professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Planalto Catarinense e professora visitante do Programa de Pós-graduação em Ensino de História da Universidade Federal do Rio Grande, apresenta sua pesquisa sobre estas cartas.

Segundo a autora, para além da atuação de entidades locais – ligadas ou não a governos –, os refugiados e deslocados buscavam sobreviver de outras formas, em especial, contatar familiares ou conhecidos que viviam no exterior que, em tese, se encontravam em uma situação financeira melhor e poderiam ajudá-los de alguma forma, principalmente encaminhando alimentos. Porém, nem todas as vítimas da guerra tinham esse recurso, o que fez com que procurassem outros meios, como encaminhar cartas para empresas, igrejas e organizações humanitárias, que enviavam mantimentos para a Europa.

Carta recebida pela Cruz Vermelha de Porto Alegre em 1947

Cartas recebidas pela Cruz Vermelha do RS em 1947

Entre as organizações, a Cruz Vermelha Brasileira do RS, com sede em Porto Alegre, recebeu inúmeros pedidos de ajuda por meio de cartas privadas, datadas na sua maioria entre 1945 e 1949 e, de forma mais esporádica, no decorrer da década de 1950. A partir desse cenário, a pesquisadora analisou qualitativamente um conjunto destas cartas-pedido – que seriam, segundo a autora, “narrativas fragmentárias de trajetórias de vida”.

“Objetiva-se compreender como o remetente/emissor articula os pertencimentos étnicos, religiosos e a compaixão humana para sensibilizar o seu potencial leitor rio-grandense, no intuito de receber um pacote de mantimentos, roupas, entre outras doações. Essa escrita de si descortina alguns aspectos do cotidiano miserável do pós-guerra, seus dramas e traumas, vivido e narrado por protagonistas anônimos, e o trabalho de mediação, escuta e assistência das organizações humanitárias transnacionais, como a Cruz Vermelha”, explica.

Leia na revista HCS-Manguinhos:

“A uma família desconhecida”: cartas de deslocados europeus à Cruz Vermelha Brasileira, filial Rio Grande do Sul, no pós-Segunda Guerra Mundial, artigo de Rosane Marcia Neumann (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)

Carta recebida pela Cruz Vermelha Brasileira, filial RS, em Porto Alegre, no pós-segunda-guerra

Carta recebida pela Cruz Vermelha Brasileira, filial RS, em Porto Alegre, no pós-segunda-guerra