Fevereiro/2026
Implantada no lugar então considerado o mais adequado para ser o porto de entrada da região amazônica, situada no delta de um grande rio e rodeada de pântanos, até meados do século XIX a cidade de Belém não combinava com o gosto europeu. Tinha ruas de terra vermelha, que faziam poeira em tempo seco e lama quando chovia, carecia de ventilação em ambientes fechados públicos, resultando em odores peculiares, e era cenário de endemias tropicais.
No artigo Gama e Abreu, as ações urbanas e a questão da salubridade na Belém da segunda metade do XIX, publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 32, 2025), Jorge Nassar Fleury, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisa as reformas na cidade comandadas por um ator social emblemático da época: José Coelho da Gama e Abreu.
Filho de pessoas influentes e com certo poder aquisitivo – seu pai era oficial da marinha portuguesa e sua mãe filha de tenente-coronel -, Gama e Abreu passou boa parte da infância e adolescência em Lisboa e formou-se em filosofia e matemática na Universidade de Coimbra em 1853. De volta ao Brasil, foi diretor de obras públicas, presidente da província do Pará e também do Amazonas e primeiro intendente municipal de Belém pós-proclamação da república.

Abreu estava interessado na aparência da cidade e parecia estar também preocupado com questões de saúde pública, pelo menos a partir de sua visão de mundo: um homem branco, filho de pessoas ricas e pertencentes às classes militares do império, com educação europeia, subserviente da monarquia instaurada no Brasil e um político que sempre transitava entre os que comandavam o país, seja qual fosse o partido ou sistema político em voga. Ele também foi responsável por vários feitos, como a participação da região nas Exposições Universais de Paris (1889) e Chicago (1893).

Segundo Nassar Fleury, Abreu sintonizava-se com a ideia de europeização e branqueamento do Brasil, imaginados em decorrência do progresso e da civilização, com políticas públicas com viés disciplinador, cheias de insucessos, muita exclusão social e intervenções que impactavam só uma pequena parte do espaço urbano da cidade. Segundo o autor, as reformas do século XIX evidenciam uma cidade comandada por uma classe burguesa que ascendeu rapidamente ao poder com a exportação da borracha, instalou uma nova lógica de cidade e teve em Gama e Abreu um de seus maiores representantes.
Leia em HCS-Manguinhos:
Gama e Abreu, as ações urbanas e a questão da salubridade na Belém da segunda metade do XIX, artigo de Jorge Nassar Fleury (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)



