Artigo analisa origem do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém

Março/2026

Inaugurado em 1895, o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, Pará, foi construído a partir de uma única propriedade, e expandido ao longo de quase cinquenta anos, até ocupar todo o quarteirão onde hoje se encontra. 

Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará, fotografia da Dronetech, de 2016 (cortesia do Serviço de Comunicação Social, Museu Paraense Emílio Goeldi)

Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará. Fotografia da Dronetech, de 2016 (cortesia do Serviço de Comunicação Social, MPEG)

No artigo Expropriação, litígio e ressignificação espacial na gênese do parque zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, 1895-1941, os pesquisadores Diego Leal, do Programa de Capacitação Institucional, e Nelson Sanjad, professor do Programa de Pós-graduação em Diversidade Sociocultural do Museu, revelam como a expansão impactou a população local, como discursos políticos justificaram a remoção de moradores e como estes espaços foram ressignificados ao longo das décadas.

A pesquisa evidencia que as justificativas para a expropriação variavam conforme as prioridades governamentais, ora enfatizando o progresso científico e educacional, ora utilizando argumentos de modernização urbana. Os autores também destacam como os antigos moradores da região buscaram resistir à remoção, seja por meio de contestações legais, seja pela imprensa local.

Foram pesquisados arquivos administrativos, relatórios institucionais do Museu e documentos do Arquivo Público do Estado do Pará. Esta ampla análise documental incluiu a avaliação detalhada de plantas baixas históricas que registram as desapropriações e mudanças na estrutura do parque – documentos que foram fundamentais para a compreensão da expansão territorial do museu e a transformação do espaço ao longo das décadas.

Planta baixa do Museu Paraense de História Natural e Etnografia em 1896, onde é possível observar o imóvel desapropriado para a instalação do museu (em rosa) e as intervenções feitas e planejadas para esse espaço e também para os terrenos vizinhos em direção à travessa Nove de Janeiro (Goeldi, 1897b)

Planta baixa do Museu Paraense de História Natural e Etnografia em 1896, onde é possível observar o imóvel desapropriado para instalação do museu (em rosa) e intervenções  (Goeldi, 1897b)

Inventários post-mortem também foram consultados para identificar o perfil socioeconômico dos moradores expropriados e suas estratégias de negociação.

De acordo com Sanjad, a transformação do Museu Paraense em um polo científico na região Norte foi impulsionada por decisões políticas que visavam modernizar as instituições culturais na Primeira República. O autor ressalta que a criação do Parque Zoobotânico estava alinhada com estratégias de desenvolvimento urbano e de promoção da ciência como ferramenta de civilização.

Leal  investiga o papel de Carlos Estêvão de Oliveira na gestão do Museu Paraense entre 1930 e 1945, evidenciando como ele articulou apoio político e financeiro para expandir o parque. O autor demonstra que a captação de recursos federais possibilitou a aquisição de terrenos e a ampliação da infraestrutura científica do museu, garantindo sua relevância na política científica brasileira da época.

Os autores ressaltam a importância do parque na preservação da biodiversidade amazônica e na formação de um espaço de lazer e educação para a população. O estudo insere-se no contexto mais amplo das transformações urbanas promovidas pelos primeiros governos republicanos no Brasil, que buscaram reconfigurar espaços urbanos para fins científicos, educativos e de lazer. A pesquisa contribui para o entendimento das relações entre política, urbanização e ciência no Brasil republicano, revelando aspectos ainda pouco explorados sobre a interação entre instituições científicas e a população local.

Leia na revista HCS-Manguinhos:

Expropriação, litígio e ressignificação espacial na gênese do parque zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, 1895-1941, artigo de Diego Leal e Nelson Sanjad (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)