Como as ideias científicas circulam entre países? Essa é uma das questões que permeiam os novos artigos de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, recentemente disponibilizados ao público. Reunindo pesquisas de autores de diferentes países, a nova atualização do volume 33, publicada no início deste ano, percorre experiências na América Latina, África, Europa, Estados Unidos e Japão para discutir a história das ciências e da saúde sob uma perspectiva internacional e interdisciplinar.
Na carta dos editores, assinada conjuntamente, Marcos Cueto e Gabriel Lopes anunciam a passagem da editoria-chefe para Lopes após dez anos de gestão de Cueto.
Um dos principais eixos da edição é a circulação internacional de conhecimentos científicos. O tema aparece em diferentes contextos históricos, mostrando como ideias, pesquisadores e instituições ultrapassaram fronteiras e contribuíram para a construção da ciência moderna.
Sobre o México do início do século 20, artigo assinado por Brian Becerra-Bressant e Ana Barahona, da Universidade Autônoma do México, revisita a obra Los grandes problemas nacionales (1909), de Andrés Molina Enríquez. Na Argentina, estudo de Nicolás Facundo Rojas (Conicet) acompanha a trajetória do médico italiano Silvio Dessy e a criação do Instituto Biológico Argentino, mostrando como pesquisa científica e empreendedorismo caminharam juntos na consolidação da bacteriologia.
A comunicação pública da ciência constitui outro eixo de destaque. Um dos artigos, de Germana Barata, da Unicamp, e Carolina Ferreira Medeiros, da Usp, examina as estratégias de divulgação adotadas por duas das mais influentes revistas médicas do mundo: The New England Journal of Medicine e The Lancet.
A construção social da ciência também é tema do estudo de Jorge M. Escobar Ortiz, do Instituto Tecnológico Metropolitano, que analisa a literatura infantojuvenil colombiana para compreender como os cientistas são retratados e discutir os impactos desse imaginário, por exemplo, nas desigualdades de gênero.
Ainda na seção Análise, José Javier Plumed Domingo, da Universitat de València, examina as transformações da medicina mental espanhola entre 1870 e 1910, mostrando como a incorporação da subjetividade e da psicopatologia francesa redefiniu a compreensão da experiência da loucura.
Os estudos voltados ao Brasil exploram diferentes dimensões históricas. Um deles utiliza mapas produzidos entre os séculos 17 e 19 para compreender a disputa territorial contemporânea entre Piauí e Ceará. Na seção Imagens, outro trabalho investiga capas e anúncios de medicamentos publicados pela revista Eu Sei Tudo entre 1917 e 1958, revelando como referências da Antiguidade greco-romana foram apropriadas pela indústria farmacêutica para construir ideais modernos de saúde, força e beleza.
Em Notas de Pesquisa, seção dedicada a estudos ainda em desenvolvimento, trabalho de Daniel Florence Giesbrecht aborda a correspondência entre Renato Kehl e António Mendes Correia, analisando a circulação de ideias eugênicas entre Brasil e Portugal nas primeiras décadas do século 20. Na mesma seção, outro estudo analisa a hanseníase em Moçambique no mesmo século. Também estão disponíveis resenhas sobre livros da história das ciências.
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