HCS-Manguinhos também é futebol

Junho/2026

De todos os esportes modernos, o que atualmente mais tem agradado é indubitavelmente o football, como tivemos ocasião de apreciar anteontem no ground do Jockey Club. (…) Desde a manhã, notava-se nas ruas certo movimento festivo. (A República, Curitiba, 14 jun. 1910, p.1)

A partida de “football” retratada acima ocorreu em 1910, no Jockey Club do Paraná, e demonstra a forte influência britânica no Brasil naquele início de século, conforme revela o artigo Esportes, divertimentos e saúde em Curitiba na transição do século XIX para o XX, de Leonardo do Couto Gomes e Wanderley Marchi Júnior, publicado na revista História, Ciências, Saúde- Manguinhos (v. 32, 2025).

Detalhe de charge publicada no jornal A Gazeta, São Paulo. 26 set. 1922, por ocasião da "Semana dos symbolos da Nação"

Detalhe de charge publicada no jornal A Gazeta, São Paulo, 26/9/1922

Na década seguinte, o esporte já era tão conhecido no Brasil que era capaz de inspirar rivalidades entre elites regionais, como demonstra Christina Peters no artigo Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República (História, Ciências, Saúde- Manguinhos, v. 21, n.1, jan-mar/2014).

Segundo Peters, a imagem com a legenda “O globo vai representar a supremacia de S. Paulo nos campos de futebol”, publicada no jornal paulista A Gazeta em 26 de setembro de 1922 por ocasião da “Semana dos símbolos da nação”, demonstra o quanto a autoclassificação paulista de ser superior no futebol estava ligada a acontecimentos políticos – no caso, o Centenário da Independência. 

De acordo com a autora, as elites de São Paulo e do Rio competiam também num campo mais amplo que o de futebol – o campo discursivo, pela soberania e o direito de representar a nação esportiva no Brasil e no exterior.

“A superioridade e autopercepção de São Paulo como o centro de emanação do futebol do Brasil se expressou também em várias ilustrações. Uma delas foi publicada logo depois do sucesso dos paulistas no primeiro campeonato brasileiro em 1922”, afirma a autora, que se baseou principalmente em fontes paulistas, como A Gazeta

Como na Grande Guerra: para sustar a marcha triumphal do Paulistano na Europa, será preciso appellar para as colonias. Charge publicada em A Gazeta, São Paulo. 17 abr. 1925.

Como na Grande Guerra: para sustar a marcha triumphal do Paulistano na Europa, será preciso appellar para as colonias. Charge em A Gazeta, São Paulo, 17/4/1925.

Mas se, nas primeiras décadas no Brasil, o esporte ainda era restrito às elites, na década de 1930, começou a se popularizar nas classes trabalhadoras, a ponto de motivar a criação de uma Liga de bancários em São Paulo.

No artigo O esporte, a saúde e a vida bancária: a prática do futebol pelos trabalhadores bancários paulistanos, 1929-1932, Gabriela Marta Marques de Oliveira e Edivaldo Góis Junior História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 30, 2023) analisam relatórios, documentos e publicações da Associação dos Funcionários de Bancos do Estado de São Paulo, entre eles o jornal mensal Vida Bancária. Os autores explicam que a fundação de uma liga de futebol sob o patrocínio da associação de classe dos bancários estava em consonância com o pensamento de lideranças comunistas do período, que apoiavam a chamada “proletarização dos esportes”.

“O que se pretendia com isso era a tomada para si, por parte dos sindicatos e das associações, da organização do esporte dos trabalhadores. Isso porque essas lideranças acreditavam que o futebol, “esporte burguês”, estava desviando as atenções dos trabalhadores, tirando deles o foco na luta por melhores condições de trabalho e de vida. Após anos de negação do futebol como parte da cultura dos trabalhadores, passou-se a defender a prática desse esporte nos sindicatos”, revelam.

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Leia na revista HCS-Manguinhos:

Esportes, divertimentos e saúde em Curitiba na transição do século XIX para o XX, artigo de Leonardo do Couto Gomes e Wanderley Marchi Júnior (História, Ciências, Saúde- Manguinhos, v. 32, 2025)

O esporte, a saúde e a vida bancária: a prática do futebol pelos trabalhadores bancários paulistanos, 1929-1932, artigo de Gabriela Marta Marques de Oliveira e Edivaldo Góis Junior História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 30, 2023)

Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República , artigo de Christina Peters (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 21, n.1,  jan-mar/2014).