Maio/2026
Numa iniciativa voltada à valorização da produção de bons pareceres e à formação de novos pareceristas, o Blog de HCS-Manguinhos publicará em 2026 uma série de entrevistas com pareceristas que se destacaram nas avaliações feitas para a revista. Os editores e toda a equipe editorial de História, Ciências, Saúde – Manguinhos agradecem as contribuições e reforçam a importância destes pesquisadores na manutenção da excelência da revista.
ENTREVISTA | Ana Teresa A. Venancio
Por Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Ana Teresa A. Venancio. Foto de Vitor Vogel/Fiocruz
Um parecer deve estimular o autor de um artigo a melhorar o seu trabalho, apresentando um diálogo com as suas ideias. É com essa clareza de objetivos que Ana Teresa A. Venancio dedica-se a elaborar pareceres de artigos – atividade científica que, a seu ver, “é uma forma de aprender e de produzir o próprio campo”.
O Blog de HCS-Manguinhos tem a honra de iniciar a série de entrevistas com pareceristas da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos com esta experiente pesquisadora do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) e professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS), da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.
Ana Teresa gentilmente compartilhou conosco suas percepções sobre o trabalho de produzir pareceres para manuscritos submetidos para publicação.
Blog de HCS-Manguinhos: Quais as características de um bom parecer?
Ana Teresa A. Venancio: Um bom parecer não apenas avalia se um texto é publicável, mas ao fazê-lo estimula o autor a melhorar o seu trabalho, demonstrando os problemas e indicando caminhos, soluções, quando possível. Sabemos que, por diversos motivos, há textos não recuperáveis. Contudo é muito bom quando um parecer estimula no autor a produção científica. O parecer deve apresentar de fato um diálogo com o autor, afinal escrever pareceres e receber pareceres é parte das atividades científicas, é uma forma de estar no campo científico, de aprender e de produzir o próprio campo.
Um bom parecer deve logo no início dizer o que o parecerista entendeu como questão fundamental do artigo. A partir disto deve trazer uma avaliação geral dos pontos positivos e negativos do texto, a respeito de critérios que me parecem cruciais: originalidade, bibliografia pertinente e atualizada, clareza de ideias e argumentos, qualidade da produção textual, da revisão bibliográfica e da demonstração analítica.
No intuito de que o artigo seja publicado, o parecer deve ser claro e direto nas modificações recomendadas, que visam ajudar o autor a superar os pontos negativos já indicados. Muitas vezes, enumerar as questões que precisam ser modificadas ajuda o parecerista a comunicar de modo direto suas indicações. Nesses pontos de mudança, é importante citar exemplos, páginas, trechos do artigo etc, estreitando ainda mais o diálogo com as ideias do autor.
Por último, considero que um parecer desfavorável à publicação deve também ser igualmente detalhado, pois se vários podem ser os motivos para não publicação de um texto, é fundamental explicitar ao autor o que não é suficiente, o que parece equivocado, considerando-se os critérios que já mencionei. Afinal a história das ciências também tem nos ensinado que a ciência se produz na comunicação.
O que se espera de um artigo a ser publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos?
Penso que se um pesquisador vai apresentar um artigo à Manguinhos ele deve ter em mente duas coisas. A primeira é o campo temático da revista, o que não é pouca coisa, já que desde sua criação ela tem sido um instrumento fundamental para o fortalecimento e expansão do campo da história das ciências e da saúde no Brasil. Tornou-se assim um espaço para reflexões sobre três temas cruciais às sociedades modernas – a história, a ciência, a saúde – as quais, lideradas pela perspectiva histórica, investem também na própria articulação entre ciência e saúde.
Um texto a ser submetido à Manguinhos deve atender a avaliação de parecer onde estão colocados muitos dos critérios que mencionei anteriormente e que são condições imprescindíveis para um bom artigo: originalidade e, portanto, também qualidade da demonstração analítica, bibliografia atualizada, qualidade da produção textual etc. Me parece muito interessante o autor olhar o roteiro de um parecer como um guia, uma espécie de norte, na autoavaliação de seu próprio artigo, o que pode ser bastante produtivo para a qualidade e aprimoramento do texto que irá submeter à publicação.
Que tipos de dilemas e impasses se apresentam a um parecerista de uma revista de história da ciência e da saúde hoje?
De um modo geral acho que um dos impasses é o fato da elaboração de pareceres não ser valorizada como produto científico pelas agências reguladoras e financiadoras, desestimulando os novos pesquisadores a esta atividade, dada a lógica produtivista do campo científico nas duas últimas décadas. A pouca prioridade dada pelos pesquisadores a elaboração de pareceres frente a todas as outras atividades acadêmicas e investigativas, em muitos casos, produzem também pareceres sintéticos, mais como monólogos do que diálogos.
Para a área da história da ciência e da saúde hoje acho que o grande impasse e desafio diz respeito aos inúmeros ataques e negacionismos que a ciência e as ideias de saúde pública vêm sofrendo globalmente – principalmente a partir do contexto da pandemia de Covid-19 –, em especial as ideias protetivas aos grupos sociais mais vulneráveis, comprometidas com a construção de sociedades mais justas em um mundo sustentável. Ao atuarmos com esta ciência e por esta ciência no contexto atual, temos o desafio de fazermos cada vez melhor o ofício de parecerista. Como? Ajudando a qualificar a ciência que produzimos para melhor divulgar dados e respostas consistentes aos problemas existentes, mas também colaborando na produção de novas perguntas que animem a reflexão e atuação sobre o panorama social atual e sobre questões do passado que se reapresentam no presente.
Leia artigos de Ana Teresa A. Venancio na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos:
A circulação de ideias sobre a esquizofrenia no contexto psiquiátrico do Rio de Janeiro, décadas de 1910 e 1920, artigo de Ana Teresa A. Venancio e Renilson Beraldo (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 31, 2024).
O Hospício da Praia Vermelha do Império à República (Rio de Janeiro, 1852-1944), Organizadores: Ana Teresa A. Venancio e o historiador Allister Teixeira Dias. Editora Fiocruz e a Editora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) (2022).
Da colônia agrícola ao hospital-colônia: configurações para a assistência psiquiátrica no Brasil na primeira metade do século XX, artigo de Ana Teresa A. Venancio (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 18, supl. 1, dez 2011)
História do saber psiquiátrico no Brasil: ciência e assistência em debate, artigo de Ana Teresa A. Venancio (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 10, n. 3, dez 2003)
Ciência psiquiátrica e política assistencial: a criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil, artigo de Ana Teresa A. Venancio (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 10, n. 3, dez 2003)
Leia sobre seus artigos no Blog de HCS-Manguinhos:
Da Europa ao Rio, ‘esquizofrenia’ substituía ‘demência precoce’ na psiquiatria há cem anos
Em artigo publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 31, 2024), Ana Teresa A. Venancio e Renilson Beraldo contam que o diagnóstico ganhou destaque em meios científicos e assistenciais nas décadas de 1910 e 1920
O Hospício da Praia Vermelha do Império à República
Postura isenta e generosidade para um bom parecer
Revisão por pares: do ‘duplo-cego’ à abertura total
‘Pareceres abertos, desde que em comum acordo’



