Abril/2026

Capa do livro didático de Josué de Castro, de 1939. Foto de Breno Viotto Pedrosa.
Autor da célebre obra Geografia da fome, de 1946, com a qual se consagrou como geógrafo, Josué de Castro era, antes de tudo, um educador, além de médico – sua formação inicial. Em 1939, então um jovem intelectual de destaque, Castro publicou o livro didático Geografia Humana: estudo da paisagem cultural do mundo.
A obra é revisitada por Breno Viotto Pedrosa, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no artigo Josué de Castro, autor de livro didático de geografia, publicado na última leva de artigos do volume 32, de 2025, da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.
Segundo Viotto, o manual de geografia de Castro traz revelações sobre sua concepção didática, a valorização de determinados debates da geografia e sua visão sobre os problemas brasileiros em comparação à geografia mundial.
“Seguindo os parâmetros curriculares do período, o livro nos demonstra como Castro pensou estratégias de ensino de geografia, como foram valorizadas temáticas como a produção de alimentos, além dos conceitos de colonização e aclimatação, visando compreender a relação entre sociedade e natureza”, afirma.
Viotto explorou o contexto de vida do jovem intelectual, como ele se inseriu na vida pública, sua relação com os geógrafos da época e sua busca por constituir uma rede internacional de colaboração científica.

Mapa “Distribuição do elemento negro no Brasil colonial e imperial” (CASTRO, 1939, p. 93). Acervo do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul. Foto: Breno Viotto Pedrosa.
O professor encontrou a obra no acervo do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul. A seu ver, pouca atenção foi dada ao livro publicado em Porto Alegre pela editora do Globo em 1939. Ele explica que, na época, o mais comum é que os livros didáticos fossem escritos por professores de escolas normais, porém Castro escreveu o seu como professor universitário.
Viotto conta que, na juventude, antes de se tornar célebre pensador do problema da fome no Brasil e do mundo, Castro oscilava seu interesse profissional entre a geografia e a antropologia. Sua visão de ensino valorizava a cultura popular, negando uma perspectiva racial eugenista e dando ênfase à geografia da alimentação no mundo.
“Castro vislumbrou o ensino como um local estratégico para divulgar suas ideias e pontos de vista que se inspiravam na escola francesa de geografia, mas eram também imbuídas de uma originalidade. Seu manual foi ofuscado pelas suas múltiplas facetas profissionais – como médico, nutricionista, político, atuação profissional etc. A presente pesquisa permite pensar sua perspectiva como educador”, revela o professor da UFRGS.
Leia na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos:
Josué de Castro, autor de livro didático de geografia, artigo de Breno Viotto Pedrosa (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)
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As cartas de Milton Santos



