Abril/2025

Juliana Manzoni Cavalcanti. Foto de Vitor Vogel/Fiocruz
A cooperação técnica estruturante em saúde do Brasil para a doença falciforme executada com Benim, Gana e Senegal disseminou para o mundo os valores universalistas e igualitários do Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa desenvolvida na segunda metade da década de 2000 reforçou a Atenção Primária Integral à Saúde como estratégia de saúde frente às proposições de controle reprodutivo.
Benim, Gana e Senegal já tinham algumas experiências no cuidado às pessoas com doença falciforme quando o Brasil se propôs a estabelecer cooperações estruturantes em saúde no alvorecer do século XXI. O governo brasileiro buscava fortalecer sua posição nas Cooperações Sul-Sul e pela primeira na história do país havia uma política específica para as pessoas que convivem com a doença falciforme – a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e Outras Hemoglobinopatias.
No artigo A divulgação internacional do Sistema Único de Saúde e as cooperações técnicas em saúde para a doença falciforme, 2006-2010, publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 32, 2025), a historiadora Juliana Manzoni Cavalcanti, bolsista de pós-doutorado sênior pelo CNPq no Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, evidencia que esta cooperação estruturante em saúde foi importante para defender que era possível acompanhar e tratar as pessoas com doença falciforme em um sistema de saúde público e universal de um país de média renda. A percepção de que era viável cuidar dessas pessoas em locais com recursos limitados foi promovida pelo Brasil em um contexto global que vem definindo a doença falciforme como um “defeito de nascença evitável”.
A nova classificação, que foi inclusive sancionada pela Organização Mundial de Saúde em 2010, tem fortalecido políticas de prevenção da doença através do controle reprodutivo. Com base em documentos históricos e depoimentos de médicos e gestores da saúde pública, a pesquisadora revela que a divulgação do modelo brasileiro de Atenção Primária Integral à Saúde ofertado às pessoas com doença falciforme no SUS conseguiu abalar um almejado consenso internacional à adoção de uma política de saúde restritiva para as pessoas com traço e doença falciforme. Ao mesmo tempo, o trabalho de cooperação estruturante em saúde, que se fez mais intensamente entre os anos de 2006 e 2010, contribuiu para a disseminação dos valores da reforma sanitária brasileira como a universalidade e a equidade em saúde.
Segundo Juliana Manzoni, a divulgação do modelo brasileiro de cuidado às pessoas que convivem com a doença falciforme foi possível devido à existência do SUS e da política nacional. Além disso, a posição do Brasil em escolher o cuidado das pessoas como uma forma de prevenção das intercorrências da doença, ao invés da prevenção de nascimentos pelo controle reprodutivo põe em relevo não só um posicionamento ético, mas as desigualdades sociais abissais que ainda persistem entre países do Norte e Sul Global.
O artigo é resultado de um projeto de pesquisa mais amplo, com financiamento do CNPq, que analisa a implementação da Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e Outras Hemoglobinopatias de 2005 a 2015.
Leia na revista HCS-Manguinhos:
A divulgação internacional do Sistema Único de Saúde e as cooperações técnicas em saúde para a doença falciforme, 2006-2010, artigo de Juliana Manzoni Cavalcanti (História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, 2025)
Leia também:
Como a doença falciforme difundiu globalmente os valores do SUS
Modelo nacional de atenção integral virou alternativa à diretriz global que indicava o controle reprodutivo a pacientes, mostra estudo da Casa de Oswaldo Cruz. Reportagem de Karine Rodrigues no site da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.



