Animais fazem história na ciência e no cinema

ENTREVISTA| Regina Horta Duarte e Natascha Stefania Carvalho de Ostos

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Clique na imagem da capa para baixar o e-book em PDF

Clique na capa para baixar o e-book em PDF

Cavalos galopando mantêm as quatro patas simultaneamente no ar? Diante da polêmica durante uma corrida de cavalos nos Estados Unidos em 1872, o fotógrafo Edward Muybridge criou uma técnica capaz de revelar o que o olhar não conseguia ver.

Com várias câmeras posicionadas em sequência e ativadas por impulsos elétricos em intervalos mínimos, obteve as fotos que provam que sim: durante o galope, por alguns instantes, todas as patas do cavalo ficam fora do chão.

A sequência de imagens The Horse in Motion, de Muybridge, de 1878, foi depositada na Biblioteca do Congresso em Washington e agora ilustra a capa do livro História dos Animais na Ciência e no Cinema (FinoTraço Editora, 2026)

Em 1880, Muybridge apresentou seu invento: o zoopraxiscópio. Com financiamento da Universidade da Pensilvânia, dedicou-se ao estudo do movimento de animais do Zoológico da Filadélfia, o primeiro dos Estados Unidos, inaugurado em 1874, e fez milhares de fotografias e centenas de projeções. Pioneiro do cinema ou abusador dos animais? A polêmica continua até hoje, conta Regina Horta Duarte no texto que abre o livro, organizado por ela e por Natascha Stefania Carvalho de Ostos.

Gratuito, o e-book reúne 12 artigos de historiadores, incluindo um de Gabriel Lopes, editor-científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos

Protagonismo animal

Natascha Ostos e Regina Horta, organizadoras

Natascha Ostos e Regina Horta Duarte, organizadoras

Natascha Ostos conta que os bichos emergem na obra como comunicadores de suas próprias realidades, mesmo em histórias criadas e contadas por seres humanos.

“Animais reais e imaginados, humanos e não humanos, são os protagonistas deste livro. Pelas lentes do cinema e da ciência, os autores desta obra consideram os outros animais como interlocutores da humanidade, muito além dos papéis que lhes foram atribuídos como coadjuvantes do mundo do entretenimento ou objetos científicos”, afirma na contracapa.

Já Regina Horta destaca, em sua introdução, que “os animais na ciência e no cinema têm uma presença dinâmica, multifacetada, polissêmica e potencialmente transformadora de nossos olhares, afetos e entendimentos sobre esses seres”.

O Blog de HCS-Manguinhos entrevistou as historiadoras, que também foram co-editoras do suplemento especial Reciprocidades em desequilíbrio: história das relações entre animais, da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v. 28, supl. 1, dez/2021). Por e-mail, elas responderam juntas. 

Blog de HCS-Manguinhos: O que motivou a organização do livro? 

Regina Horta Duarte e Natascha Ostos: O livro resulta das atividades conjuntas dos membros do Centro de Estudos dos Animais (CEA), sediado na UFMG e coordenado por mim e pela Natascha Ostos. Fundamos o CEA em dezembro de 2020 e já contabilizamos algumas realizações das quais nos orgulhamos muito: a edição de um dossiê pioneiro (o primeiro publicado no Brasil) sobre a história dos animais, na revista Manguinhos; e a organização de simpósios específicos sobre o tema nos encontros da SBHC (2024) e da Anpuh Nacional (2025). Também publicamos artigos e capítulos em coautoria, numa prática de trabalho coletivo e de reflexão conjunta. O livro surge como mais uma realização coletiva, com trabalhos originais e bastante instigantes. 

Nosso intuito é estimular essa área de pesquisa e ensino entre os historiadores brasileiros e, claro, chamar sua atenção para as possibilidades de divulgar esses conhecimentos a um público mais amplo. 

O CEA também está ligado ao grupo Scientia, da UFMG, que, por sua vez, integra a linha de pesquisa Ciência e Cultura do Programa de Pós-Graduação em História da mesma universidade. O livro é o sétimo volume da série “História da Ciência no Cinema”.

Onde as histórias dos animais, da ciência e do cinema se encontram… ou não?

A ciência no cinema, assim, é uma espécie de coluna vertebral do livro, e fizemos questão de discutir com cada autor a escolha dos filmes a serem analisados, sempre enfatizando que as reflexões sobre a ciência eram essenciais à abordagem da história dos animais. Os autores compreenderam muito bem nossa proposta e creio que isso foi fundamental para alcançarmos uma coletânea coerente, oferecendo às leitoras e leitores um conjunto de ensaios, em sua totalidade, consistentes com a proposta central da obra.  

Poderiam dar exemplos, citando artigos do livro?

Entre os exemplos do livro de diálogo com a ciência, que contém doze ensaios impressionantes (modéstia à parte), podemos destacar a forma como Helena Mollo analisa as descobertas paleontológicas de animais de um passado distante, a maioria dos quais agora está extinta, que continuam a estimular nossa curiosidade por conhecê-los. Outro exemplo é o ensaio de Jorge Tibilletti de Lara, no qual o autor defende a importância do diálogo entre o historiador dos animais e as ciências biológicas, como a zoologia e a etologia, visando compreender a alteridade de seres tão diversos e superar nossas projeções antropocêntricas, frequentemente românticas e perigosas. 

O campo da história dos animais pressupõe uma tentativa de vê-los como protagonistas?  Como o historiador faz para ver a história sob a ótica de cada animal ou espécie em seu tempo e espaço? Com quais fontes?

A história dos animais vem cultivando uma perspectiva que os reconhece como agentes ativos de transformação do mundo, e não apenas como seres passivos. Essa agência não decorre de deliberações conscientes, como ocorre entre humanos. Procurar e atribuir intenções seria mais uma projeção antropomórfica sobre outras espécies.

Também não sei se é possível nos colocarmos na ótica dos animais em seu tempo e espaço, pois, se conseguíssemos isso, deixaríamos de raciocinar como humanos… e adeus à pesquisa histórica. Por outro lado, é claro que a transdisciplinaridade é um forte apoio para o historiador: estudos de etologia e de zoologia podem nos esclarecer muito sobre a vida e as características das espécies.

Ao mesmo tempo, autores como Diogo De Carvalho Cabral, Ewa Domanska e Etienne Benson defendem que, ao escrevermos ou refletirmos sobre o mundo, somos tão afetados pelos animais que nos rodeiam (quer tenhamos consciência dessas relações ou não) a ponto de nunca escrevermos nem refletirmos sozinhos, mas sim com eles. Por isso, esses estudiosos defendem que escrever a história dos animais é sempre uma coescrita.

No nosso livro, a agência animal é abordada em praticamente todos os ensaios, mas esse tema é especialmente marcante em alguns deles. Lucas Erichsen nos mostra o protagonismo da vaca Luma por meio do seu olhar, seus mugidos, seu corpo. Cecília Rattes nos conta como a construção de uma ferrovia expressiva do poder colonial foi, de repente, ameaçada pelas ações de leões que habitavam o mesmo território africano. Laianny Terreri e Jó Klanovicz discutem como galinhas têm, sim, agência, e abordam a divertida animação sobre galinhas em fuga de uma granja que se industrializa para dinamizar sua produtividade.

Sobretudo, o cinema surge como uma fonte histórica preciosa para a história dos animais e para pensarmos sobre sua agência. Afinal, em tantos filmes, os animais são muito mais do que atores: são protagonistas.

Particularmente, fora do âmbito da história da ciência, mencionaria aqui o belíssimo filme Eo, de 2022, uma espécie de road movie equino do diretor Jerzy Skolimowski. Impossível assisti-lo sem questionar várias de nossas convicções antropocêntricas mais arraigadas.

Como o livro, em seu conjunto, poderia ajudar os animais humanos a se entenderem na natureza, melhorando assim a sua relação com os animais não humanos, semelhantes humanos e com a natureza?

O livro aborda a História dos Animais a partir de dois eixos, a ciência e o cinema. A ciência é tida pelo senso comum como uma prática utilitarista que deve trazer benefícios concretos à humanidade. Já o cinema, como arte, tende a ser considerado essencialmente imaginação, sua narrativa não precisa estar alinhada com o mundo da necessidade.

Mas, nesta obra, as reflexões desenvolvidas pelos autores extrapolam tais expectativas sobre a ciência e o cinema, pois os filmes analisados apresentam diferentes pontos de vista sobre a natureza, os animais humanos e os não humanos. Por exemplo, no documentário Garden in the Sky, tema do texto de Nelson Aprobato Filho, predomina um olhar realista sobre o mundo. Já nos filmes Howard, o Pato, examinado por Yuri Simonini, e Tartarugas Ninja, tema do ensaio de Yuri Mesquita, a proposta é a narrativa fantástica e a especulação científica.

O que temos em comum, nesses casos, e nas outras abordagens desenvolvidas no livro, é a ideia de que as relações construídas entre os humanos e os outros animais não precisam se restringir ao que está dado em nosso tempo e espaço. Outras realidades e relações podem ser criadas, para o bem e para o mal, se mudarmos a forma como interagimos entre nós mesmos e com as demais formas de vida.

Na animação The Plague Dogs, o enredo aponta que o surgimento de uma epidemia depende de elementos da organização social e do modo como convivemos com os demais seres vivos, o que ficou evidente no contexto real da pandemia de Covid-19. Igualmente, nos filmes de terror analisados por Gabriel Lopes e Rebeca Capozzi, um coelho fofinho ou formigas podem se transformar em predadores ferozes a partir de intervenções científicas em sistemas vitais complexos, com consequências imprevistas para os ecossistemas e para a existência humana. 

Arte e ciência nos informam sobre potenciais e escolhas, e o livro chama a atenção do leitor para esse pequeno espaço entre a nossa realidade, que julgamos absoluta, e o que designamos como ficção, mas que pode não ser tão fantasiosa, a depender de nossas escolhas no presente. 

Baixe o e-book História dos Animais na Ciência e no Cinema

Leia mais no Blog de HCS-Manguinhos:

A história dos animais é tema de dossiê pioneiro da HCS-Manguinhos

Suplemento temático oferece um recorte provocativo, que deixa de lado a tradicional dicotomia “animais humanos/animais não humanos” e enfatiza as relações entre espécies, sem hierarquias

Artigo de Gabriel Lopes publicado em HCS-Manguinhos recebe citação na PNAS

Artigo na conceituada revista Proceedings of the National Academy of Sciences menciona pesquisa do autor do livro autor do livro “O feroz mosquito africano no Brasil: o Anopheles gambiae entre o silêncio e a sua erradicação (1930-1940)”
 

Artigo aborda chegada de mosquito vetor da malária ao Brasil em 1930

Gabriel Lopes, pós-doutorando do PPGHCS/COC, analisa as primeiras reações de cientistas e autoridades de saúde pública contra as epidemias de malária causadas pelo Anopheles gambiae

Para enfrentar dramas sanitários, história

“A história das ciências e da saúde ajuda a entender os problemas e desafios sanitários em seus momentos mais dramáticos”, afirma Gabriel Lopes, autor de livro sobre mosquito africano causador de epidemia de malária no Nordeste brasileiro na década de 1930. Ele deu entrevista ao Blog de HCS-Manguinhos.

A pandemia de coronavírus e o Antropoceno

André Felipe Cândido da Silva e Gabriel Lopes escrevem para o especial da Casa de Oswaldo Cruz: “Diferentemente de catástrofes que extinguiriam indistintamente todas as formas de vida, a Covid-19 atinge especificamente os humanos.”

Covid-19 e outras gripes como manifestações do Antropoceno

Para Ricardo Waizbort, pesquisador do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, enquanto instâncias geopolíticas e a sociedade civil não resolverem o impasse em que nosso padrão de vida e exploração de recursos nos coloca, estaremos sob risco de desastres como a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2. Autor de artigo a ser publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, ele concedeu entrevista ao Blog de HCS-Manguinhos.

Uma certa mirada sobre a história

Desbravadora do campo da história dos animais e inovadora na área da divulgação científica, Regina Horta Duarte, professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG, entra para a equipe de editores-adjuntos da revista História, Ciências, Saúde -Manguinhos. Ela deu entrevista ao Blog.
 

As sentinelas das panzootias

Blog de HCS-Manguinhos convidou Matheus Alves Duarte da Silva para comentar a primeira detecção do vírus da gripe aviária numa granja comercial no Brasil. “Precisamos reconhecer que os animais selvagens também têm direito a existir e de maneira saudável, e, portanto, se faz necessário expandir as redes de vigilância epidemiológica”, afirma.
 

Leia na revista HCS-Manguinhos:

Reciprocidades em desequilíbrio: história das relações entre animais (Suplemento especial da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 28, supl. 1, dez/2021)